3 julho 2022 12:47
3 julho 2022 12:47

TikToker de 24 anos fica famosa ao contar a rotina de uma “cunhada” nome dado para mulher de preso

Por Redação Ecos da Notícia

- Publicidade -

Uma designer de unhas de 24 anos vem ganhando cada vez mais fama e seguidores ao contar sua rotina como “cunhada”, nome dado para mulheres com parceiros encarcerados. A influenciadora, que se chama, Marta Carollina, é dona de uma conta mais de 3,4 milhões de curtidas no seu perfil @GuiadaPorDeuss011, no TikTok. A jovem, nascida na cidade paulista de Osasco, tem um filho pequeno e passou a narrar sua vida no TikTok quando ia visitar seu parceiro preso no ano de 2021.

Marta passou a compartilhar a rotina do relacionamento à distância e os cuidados que o sistema prisional brasileiro exige. Nas redes, a paulistana responde dúvidas, explica o processo para conseguir permissão de visita e debate o preconceito enraizado na sociedade contra essas mulheres.

O termo cunhada, apelido que virou a referência da influenciadora, vem de um dialeto cultural da realidade prisional. “As meninas me questionavam muito o porquê de cunhada e eu expliquei que lá dentro eles são uma grande família. Eles se consideram irmãos uns dos outros. Eles mesmo chamam a gente assim. Quando é um amigo do meu marido, ele me chama de cunhada. E isso começou a pegar, então, nós começamos a chamar as outras de cunhada e viralizou dessa maneira”, explica.

A matéria completa é do portal IG e você pode conferir abaixo da foto da Marta Carollina.

O início

A jornada de Marta começou em maio de 2021 quando seu marido foi detido pela polícia. Na ocasião, Gustavo era um dos “gerentes” do tráfico de drogas local. Desde os 12 anos, Gustavo está inserido no mundo do crime. Em um episódio de confronto com a polícia, o rapaz levou um tiro no braço, que acabou o deixando deficiente, com movimentos restringidos no cotovelo.

A influenciadora revela que meses antes da prisão Gustavo havia tentado largar a atividade criminosa, mas, por conta da falta de oportunidades para pessoas com passagem pela polícia, voltou a traficar. “É bem difícil. As pessoas não dão oportunidade para quem já foi presidiário, para quem já passou por essa vida, eles têm muito preconceito”, reflete.

Quando foi preso, na porta da casa em que moravam, Gustavo pediu perdão para a influenciadora e a questionou se continuaria com ele. Desde então, Marta decidiu não abandoná-lo.

“Falei que não teria problema, que eu iria ficar com ele sim, porque independentemente de cadeia a gente tinha uma história e, independentemente de tudo, ele sempre foi um homem muito bom para mim. Todos os dias, sem mentira. Ele trazia café na cama, cuidava do meu filho que não é dele, era o maior amor. Então eu falei, ‘não, tudo bem, eu vou continuar’”, relembra.

A partir deste momento, Gustavo foi levado para delegacia e de lá foi encaminhado para um Centro de Detenção Provisória (CDP). Marta conta que, durante o processo, ficou muito tempo sem saber o paradeiro do marido. “Eu era muito leiga, fiquei 2 meses sem saber onde meu marido estava. Eu só fui saber que meu marido já estava em um presídio de Osasco quando ele me mandou uma carta dizendo e pedindo, ‘pelo amor de Deus’, para eu ver ele, porque ele estava passando fome”, relata.

Desesperada com a situação, Marta enfrentou uma nova batalha: a tentativa de conseguir permissão para visitar o marido. Nessa fase, a influenciadora conta que tentou fazer a carteirinha quatro vezes, mas sempre era barrada.

“Os agentes ali de Osasco […] foi onde eu mais passei humilhação. Eu fui muito humilhada ali. É difícil a gente chegar até lá, tem que pegar ônibus, pagar a passagem, é uma coisa de louco, fora a documentação que não é barata. Ao todo, eu gastei mais de R$ 100 para fazer a documentação”.

Como Gustavo foi detido durante a pandemia, na época, as visitas eram restritas e somente em julho de 2021 Marta conseguiu permissão para visitar o marido, pois os Centros de Detenção adotaram algumas regras para prevenir a covid-19, como o uso de máscaras e distanciamento físico. “Aí começou a minha saga porque eu não sabia de nada, eu não estava em nenhum grupo, não sabia como funcionava”, explica a influenciadora.

Marta relembra que procurou no Facebook por grupos de visitantes do presídio em que o marido estava. “Eu precisava entrar no grupo para conseguir ver as regras. Me aceitaram e veio a listagem sobre com o que eu poderia entrar, como entrar, o que podia ser feito e o que não”. Como exemplo, Marta cita as unhas de gel, uso de metais e vestimentas inadequadas.

A influenciadora aguardava ansiosamente pelo reencontro com o marido. Quando aconteceu, Marta se atrapalhou com as regras e a documentação necessária e, das duas horas que poderia ficar com Gustavo, aproveitou apenas 30 minutos.

“Eu acabei ficando com meu marido pouco tempo. Fiquei no máximo 30 minutos, mas foi a melhor meia hora da minha vida. Foi quando a gente conversou e eu vi que ele estava muito abatido, mais magro do que já é, e ele pedia muito, muito perdão, muitas desculpas e me disse que infelizmente não iria ficar um ano, disse que provavelmente ficaria muito tempo por conta da reincidência no tráfico. E eu prometi para ele que não iria abandoná-lo”, relata.

Após cinco meses da primeira visita, Gustavo foi condenado a 5 anos de prisão pelo envolvimento com tráfico de drogas. Devido à decisão do tribunal, ele foi transferido para um Centro de Progressão Penitenciária (CPP) em outra cidade de São Paulo, onde reside atualmente.

Carreira de influenciadora

A ideia de postar vídeos nas redes sociais surgiu de um sentimento de luto e abandono. Para não se deprimir com a ausência do marido, Marta procurou enxergar o cenário com mais leveza.

“Me sentia muito mal e muito sozinha por não ter ele comigo, porque ele também era meu melhor amigo. Eu comecei a me apegar muito nas redes sociais, a olhar vídeo das cunhadas e eu tinha na minha mente assim: ‘Poxa, eu nunca passei por isso, vou ver pessoas que já passaram para ter um pouco de força na minha caminhada’. Porque é uma caminhada muito difícil e quando é no começo a sensação para nós é de que a pessoa morreu, é um luto que vivemos ali. Eu entrava na minha casa e desmaiava, e depois várias cunhadas relataram isso para mim, que elas também sentiram essas mesmas sensações”.

Quando começou a acompanhar mulheres que passavam pela mesma situação, Marta percebeu que não havia um perfil nas redes sociais que retratasse a vivência das ‘cunhadas’ em São Paulo.

Eu não vi aqui de São Paulo e pensei ‘vou fazer [os vídeos] também’. Então, comecei a fazer vídeos mostrando o jumbo, eu ia para a visita e mostrava minha roupa. A partir disso, as meninas me pediram cada vez mais vídeos, sendo que, no Instagram, eu já compartilhava a minha rotina. Aí eu pensei: ‘As meninas estão querendo, não é? É uma forma de distração para mim, vou mostrar para elas o meu dia a dia’ e comecei a fazer mais vídeos”, relembra.

Desde então, Marta segue como influenciadora de um nicho que antes era quase inexistente. No TikTok, ela apresenta um conteúdo informativo do processo de acompanhamento carcerário, e, além disso, compartilha com os seguidores as dores e os perrengues de quem está inserido nessa realidade.

No perfil do TikTok, a influenciadora já conta com mais de 210 mil seguidores, cerca de 3,4 milhões de curtidas e possui vídeos com mais de 4 milhões de visualizações.

Foi muito estranho no começo porque eu sofria muito ‘hate’ e eu me chocava muito com os comentários. Porém, dos comentários ruins, sempre vinha aquela enxurrada de comentários bons, do tipo ‘Continua’, ‘Faz mesmo’, ‘Eu passo pela mesma situação, cunhada’, ‘Está me ajudando’”, prossegue.

“Eu comecei a pensar: ‘Realmente, estou fazendo alguma diferença, as pessoas gostam de mim, as pessoas gostam do conteúdo, estou quebrando o tabu de alguma maneira, então eu vou continuar’. Antes eu chorava, hoje em dia eu dou risada dos haters, respondo com a maior ironia, até porque, o que a gente passa não é bom, mas se a gente tirar sempre na tristeza não vai adiantar. Então, nós temos que tirar um sorriso brincando mesmo”.

Desde que decidiu manter o relacionamento com o marido encarcerado, Marta afirma que lida com o preconceito social. “Eles dizem que nós somos coniventes com o ‘errado’. Mas nós não aceitamos o crime, a gente aceita o nosso familiar. Não vamos abandonar nosso familiar naquele lugar sabendo que ele pode vir para a rua pior, porque é um lugar de muita revolta”.

Questionada da impressão do marido sobre os vídeos que posta, Marta confessa que no início Gustavo ficou apreensivo. “No começo, ele ficou bem receoso porque tinha medo que eu falasse algo que o prejudicasse, que o fizesse levar algum tipo de advertência na unidade. Então ele tinha muito medo que acontecesse algo, que eu expusesse a unidade de alguma forma. Ele falava ‘toma cuidado, presta atenção’”.

Apesar da insegurança do início, atualmente o marido da influenciadora enxerga o perfil com mais tranquilidade. “Hoje em dia ele já gosta, já diz ‘fala mesmo, o que tiver que segurar eu seguro. Coloca a boca no trombone, fala o que acontece nas unidades, porque tem muita gente que pensa que quem está vivendo aqui está num castelo de férias’. Hoje em dia, ele super aceita, gosta demais”, explica.

A influência como trabalho

Assim que os números de Marta foram crescendo, a influenciadora passou a monetizar o conteúdo e os perfis nas redes sociais. Além disso, a jovem viu o crescimento como uma oportunidade de alcançar mais clientela.

Antes desse perfil, eu já fazia cabelo, maquiagem e unhas. Eu postava muito na internet e eu queria muito seguir essa carreira de influenciadora, de blogueira. Então, eu comecei a ver aquilo como uma grande chance de crescer na área. E hoje eu já trato o meu TikTok, o meu Instagram, como um perfil profissional, faço muitas parcerias graças a Deus”, finaliza.

Por No Amazonas é Assim

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS EM SEU EMAIL

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Junte-se a 146.752 outros assinantes

ÚLTIMAS