13 agosto 2022 6:40
13 agosto 2022 6:40

Trinta anos esta noite: familiares, amigos e admiradores lembram com missa na Catedral as três décadas do assassinato do governador Edmundo Pinto

Conheça as histórias paralelas ao assassinato que, três décadas depois, ainda é envolto em mistério; família insiste na tese de que governador abriu o quarto de hotel para um conhecido

Por Tião Maia, da redação ecos da notícia

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Familiares, amigos e admiradores se reúnem na noite desta terça-feira, na Catedral Nossa Senhora de Nazaré, em Rio Branco, Capital do Acre, para uma missa e uma sessão de manifestação de saudades do governador do Estado Edmundo Pinto de Almeida Neto, assassinado, aos 38 anos de idade, em pleno exercício do mandato, na madrugada de domingo do dia 17 de maio de 1992, num quarto de hotel de luxo, em São Paulo. Um crime até hoje envolto em mistério e cuja conclusão da polícia paulista de que o governador fora vítima de um assassinato comum, o latrocínio – assalto seguido de morte, é contestada pelos familiares de Edmundo.

De acordo com a ex-primeira-dama e viúva Fátima Almeida e para o ex-vereador Rodrigo Pinto, que estão no Acre para as sessões de saudades de Edmundo Pinto nos 30 anos do assassinato, o então governador não foi assassinado num crime comum. Para eles, o crime foi político, para que grupos interessados na tomada no poder chegassem ao Governo do Estado e assim encobrissem irregularidades administrativas e desvios envolvendo obras como a do Canal da Maternidade, cuja corrupção ele pretendia denunciar em depoimento na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Congresso Nacional, onde deveria depor na terça-feira, 19 de maio. Duas balas o calaram para sempre, dois dias antes do depoimento.

Os acreanos souberam do assassinato de seu governador, morto entre 2 e 3 horas da madrugada (no horário de São Paulo), graças ao locutor da Rede Globo Galvão Bueno, que transmitia, no amanhecer do Acre naquele domingo, mais uma corrida de Fórmula 1, direto de San Remo, na qual o piloto Airton Senna dava um show de habilidades e por isso sagar-se-ia campeão da disputa – e morreria em acidente, 12 anos, depois, em Ímola, também na Itália.

De acordo com o relato de Galvão Bueno, Edmundo Pinto morrera com os dois tiros, após ter o apartamento em que estava hospedado, de número 704, do Hotel Della Volpi Garden, invadido por três homens. O apartamento não fora arrombando. Na versão da polícia paulista, os três bandidos, que foram presos, passaram algum tempo na cadeia e desapareceram na imensidão deste país, não havendo informações seguras se estão vivos ou mortos – conseguiram uma cópia da chave mestra do hotel. Com isso, ainda de acordo com a polícia Paulista, passaram a abrir e a roubar os apartamentos de forma aleatória e assim chegaram aonde estava Edmundo Pinto.

Antes de entrarem no apartamento em que estava o governador acreano, invadiram o de número 714, onde estava o executivo John Franklin Jones, funcionário do banco norte-americano Northeast. Jones disse à polícia paulista que os assaltantes eram três mulatos, que o amarram com fios de telefone mas, mesmo assim, ele teria conseguido fazer ligações, com os dedos dos pés, para seu país e a partir daí o governo norte-americano comunicou o FBI sobre o que estava acontecendo, naquela madrugada, no Brasil. Foi o depoimento do executivo norte-americano que levou a polícia paulista a encerrar o caso como latrocínio, já que os bandidos, além de matarem o governador, teriam roubado entre 500 a 600 mil cruzados (a moeda da época), que estavam em posse de Edmundo Pinto, em espécie. Foi o depoimento do executivo norte-americano que permitiu a prisão dos criminosos e a conclusão da polícia sobre o caso.

O depoimento do norte-americano, de tão impressionante, fez lembrar o personagem MacGyver, de uma série de TV muito famosa na época, chamada Profissão: Perigo, na qual o ator Richard Dean Anderson interpreta um agente secreto capaz de, entre outras coisas, provocar uma guerra, até com uma série de explosões, com o uso de coisas simples, como um isqueiro ou uma tampinha de refrigerante. Dado o primeiro e único depoimento, John Franklin Jones ou o MacGyver da vida real, também desapareceu como se a terra o tivesse engolido.

“Vou ser governador!”, teria dito Edmundo Pinto aos cinco anos de idade, contava seu pai Pedro Veras

Governador Edmundo Pinto

A história digna de um filme de final nada feliz começa 33 anos antes daquela madrugada fatídica na capital Paulista. O comerciante aposentado Pedro Veras de Almeida, um cearense dos muitos que ajudaram na colonização do Acre em meados dos anos 40 do século passado, morto de causas naturais 11 anos após de ter sido obrigado a enterrar o cadáver do filho governador, contava que, um dia, quando Edmundo Pinto tinha por volta dos cinco anos, com a família reunida (Edmundo Pinto era o segundo filho homem de Pedro Veras e de dona Angelina, cujo casal teve ainda duas mulheres, Ângela e Francisca), começaram uma brincadeira em relação ao futuro. Cada um dos filhos, segundo Pedro Veras, deveria dizer o que seria quando crescesse. Ao chegar a vez de Edmundo Pinto, ele com cinco anos de idade, no máximo, para espanto de todos, tascou: – vou ser governador! Surpresos com a resposta da criança, alguém da família de poucas posses do bairro XV, em Rio Branco, o fez responder de novo. E o imberbe, de novo responde, na lata: – vou ser governador – talvez sem nem saber o que isso significava.

Aquela previsão de criança se cumpre 33 anos depois, quando Edmundo Pinto toma posse a 15 de março de 1991, após ter sido eleito, em outubro do ano anterior, após vencer a eleição sobre o petista Jorge Viana, no segundo turno daquele processo eleitoral, com uma diferença de pouco mais de 14 mil votos. Ambos, Edmundo e Jorge, haviam começado a campanha com apenas um traço nas pesquisas de opinião pública, que davam como govenador virtualmente eleito, um certo Rubem Branquinho, um engenheiro arrivista vindo de Goiânia (GO) e recém-chegado ao Acre, no início do governo Nabor Júnior, par ser um polêmico secretário de Transporte.

Ele se elege deputado federal em 1986 e, em 1990, já reivindica o governo acreano, após uma administração eivada de denúncias de corrupção. Branquinho disputava a eleição pelo PSC, um dos muitos partidos de aluguel da época, contra Edmundo Pinto, do PDS, Jorge Viana, do PT, Osmir Lima, do MDB, e Réssine Jaude, do PSDB. Aberta as urnas, o homem que antes da eleição já formava sua equipe de Governo, chega em quarto lugar numa disputa de cinco candidatos e, após a derrota, desaparece do Acre da mesma forma como chegou.

Edmundo Pinto e Jorge Viana vão para o segundo turno numa disputa entre dois legítimos acreanos, da mesma origem política, a Arena, partido de apoio à ditadura militar, mas agora com discursos diferentes: o petista, baseado na preservação ambiental e se apresentando como herdeiro dos ideais do ambientalista Chico Mende4s, assassinado em Xapuri quatro anos antes, e o pedessista representando o que havia de mais antagônico a isso, o apoio ao agronegócio e outras frentes de desenvolvimento, como a pavimentação da BR-364, ligando a Capital ao Vale do Juruá. Abertas as urnas, prevaleceu o discurso de Edmundo Pinto.

 

Vitória para governador só ocorre depois de seguidas derrotas eleitorais

Edmundo Pinto- reprodução google

Mas, antes de se tornar vitorioso nas urnas, Edmundo Pinto comeu o pão que o diabo amassou, amargando seguidas derrotas. A primeira, em 1974, quando disputou, aos 19 anos de idade, pela Arena, o cargo de deputado estadual. Em 1976, o de vereador, por Rio Branco, com uma nova derrota. De novo, em 1978, para deputado estadual, agora já pelo PDS. Antes, perde também a eleição para a Associação dos Motoqueiros do Acre, esporte do qual o futuro governador era um dedicado praticante.

Em 1982, acaba a maré de azar e de derrotas: ele é eleito vereador e assume em 1983. Três anos depois, se elege deputado estadual em cujo mandato faz oposição cerrada ao então governador Flaviano Melo e a seu sucessor, Edson Cadaxo, ambos do MDB, o que o credencia a ser governador em 1990, o quarto eleito pelo voto popular – descontando-se os cinco governadores indicados pela ditadura militar e os dois vices que assumiram como titulares, na época.

Como a Constituição Federal de 1988 e a estadual, do ano seguinte, estabeleciam um interstício de cinco meses entre a eleição e aposse do novo governador, Edmundo Pinto passaria todo esse tempo como uma autêntica Rainha da Inglaterra, aquela que detém o poder, mas não manda em nada. Governador sem a caneta na mão, que continuava em posse de Edson Cadaxo, o vice de Flaviano Melo que assumira por nove meses com a renúncia do titular para ser candidato e eleito senador da República, o trabalho de Edmundo Pinto, naquele período, consistia em avaliar nomes para a formação de seu futuro governo. Isso se dava em sua residência, uma casa humilde do Conjunto Bela Vista situada numa ruazinha de terra batida atrás do famoso Bar União, a qual, hoje, além de urbanizada, leva o nome do governador assassinado.

Ali, além de currículos, Edmundo Pinto recebia muitos presentes e fartos banquetes de cafés-da-manhã ofertados pelos interessados em espaços no Governo. Era tanta coisa que a empregada doméstica da família chegava a despejar no lixo quilos e mais quilos de bolos, mingau de banana, tapiocas e pamonhas que eram levados à casa numa autêntica inflação de puxa-saquismo manifestada por aquelas ofertas cheias de segundas intenções.

 

Luís Carlos Pietschmann ou Pitimam: nome sobrenome de um homem polêmico envolvido no caso

Consta que uma das presenças mais frequentes nessas ofertas e em outros tipos de reuniões que o governador eleito promovia era a do empresário Luís Carlos Pietschmann, um paranaense natural de Toledo, nascido em 1962, que chegara ao Acre cinco anos antes trazido pelas mãos do empresário Zamir Teixeira, também conhecido como Zam, o Terrível, um ex-vereador pelo município de Campo Mourão, de onde teria saído, dentro de um caixão, dado como morto, para não pagar dívidas. Pois não é que o homem apareceu no Acre, vivinho da silva, como um filantropo que doava cestas básicas e roupas usadas para a população miserável através de uma fundação que levava seu nome? Nessa condição, nas eleições de 1986, candidatou-se ao Senado e chegou à condição de primeiro suplente, do então senador Nabor Júnior. Na época, a legislação permitia a inscrição de três chapas concorrentes ao Senado, com três integrantes pelo mesmo Partido, sem a necessidade de primeiros e segundos suplentes, como corre agora, com a legislação atual.

Foi chefe da Casa Civil do Estado do Acre na gestão de Edmundo Pinto, quando este foi assassinado em 1992.

Assim, os candidatos mais votados das outras duas chapas com até três postulantes, tornavam-se os suplentes do mais votado entre todas as chapas. No caso, o primeiro suplente de Nabor Júnior passou a ser exatamente ele, Zam, o Terrível, que foi o mais votado da chapa 2, com o jornalista e advogado Emílio Asmar, da terceira chapa, na condição de segundo suplente.

Nabor Júnior, durante oito anos, não permitiu que Zamir Teixeira assumisse seu lugar nem por um minuto. Mas isso não impedia que o suplente se apresentasse país a fora, com carteirinha e boton de suplente, como senador-suplente, uma função inexistente, mas que o franqueava, por exemplo, passe livre no Palácio do Planalto, então ocupado pelo presidente José Sarney, e contato direto com a matriarca presidencial, uma certa Dona Kyola.

Além de passe-livre com a mãe do presidente, o suplente de senador Zamir Teixeira também se jactava de uma relação direta com madame Jackeline Onassis, a ex-primeira-dama dos Estados Unidos e viúva do presidente Jonh Kennedy, agora esposa do armador grego e bilionário Aristóteles Sócrates Onassis. Para impressionar os incautos, Teixeira chamava a ex-primeira-dama norte-americana de comadre, já que ela seria madrinha de batismo, ainda que por correspondência e procuração – uma prática possível, com a ajuda da embaixada americana no Brasil -, de seus filhos gêmeos Kennedy e Onassis.

Adalberto Aragão e Silva, um ex-ajudante de serviços gerais do Banco do Brasil, sertanejo de Sobral (CE), que se elegera vereador por Rio Branco e da Câmara Municipal passou como deputado e presidente da Assembleia Legislativa, prometia ser um político de futuro e estava prefeito de Rio Branco, eleito em 1985, nas primeiras eleições livres da Capital após a ditadura militar, que proibia esse tipo de evento em regiões de fronteira sob o argumento de necessidade da preservação da segurança nacional.

Aragão andava sempre cercado de seguranças com muitos, diziam à boca pequena na época, crimes e sangue nas costas. Um dos poucos momentos de lazer do então prefeito, que se tornara também um dos grandes pecuaristas – senão um dos maiores do Estado – era o jogo de baralho na sede do Rio Branco Futebol Clube, no centro da cidade. Numa das mesas de carteado, chegara ao prefeito e pecuarista a informação de que seu amigo e correligionário de MDB, os senadores Nabor Júnior, estava ameaçado de não concluir o mandato de senador, em função de um possível acidente ou cosia do gênero, algo que seria patrocinado por seu suplente, o Terrível Zan. Aragão então manda chamar à mesa de carteado o suplente e, num linguajar próprio dos sertanejos, e para quem ali quisesse ouvir, passa a seguinte mensagem:

– Olhe, aqui seu Zamir: se acontecer alguma coisa com meu amigo Nabor Júnior, se ele escorregar numa casca de banana e se machucar, eu vou responsabilizar o senhor. Fique sabendo, se algo acontecer com ele, que na sua casa não sobra nem pinto de terreiro, seja o senhor quem for e seja compadre do diabo que o parta. Me entendeu?

Isso, sob olhares de mais de meia dúzia de homens que, ao menor sinal do chefe, sacariam suas armas ou aplicariam uma boa sova no traquina do suplente de senador. Pelo sim ou pelo não, Nabor Júnior conclui o mandato sem maiores incidentes, se elege para um segundo, com outros suplentes, também concluído em 2002, e hoje vive em Brasília com gordas pensões de governador e senador aposentado, aos 90 anos de idade, e acaba de escrever um livro contando sua passagem pela história política do Acre, de 1960 até 2002, omitindo, no entanto, a história com Zamir Teixeira e seus detalhes na edificantes. Adalberto Aragão morreu num acidente automobilístico, na BR-364, nos anos 2000.

Quem também parece não ter nenhum orgulho de suas relações com Zamir Teixeira – que se apresenta hoje como empresário instalado na cidade de São José dos Pinhais, na grande Curitiba (PR), onde é dono de um brechó e tenta engrenar a carreira artística dos gêmeos Kennedy e Onassis como dupla sertaneja – é Luís Carlos Piestchman, aquele de presença frequente nos fartos banquetes da casa de Edmundo Pinto. Com o passe livre de quem foi um dos primeiros apoiadores do então candidato a governador, quando ele aparecia com apena um traço nas pesquisas de opinião pública, o empresário, a despeito dos presentes caros de seus concorrentes, iria se tornar um homem forte do futuro governo Edmundo Pinto.

Aos 27 anos de idade, chegara à chefia do Gabinete Civil, o mais importante órgão do governo estadual depois do gabinete do governador. Dali, o então chefe do gabinete civil pilotava a política estadual ao ponto de ser apontado como provável candidato do governo às eleições municiais de 1992, como candidato a prefeito da Capital. Tanto é que, para se tornar mais palatável ao eleitor, ele manda aportuguesar o sobrenome de origem alemã para Pitiman – talvez um parente distante da cantora Eliana Pittman.

 

Incêndio ao prédio da Assembleia: um mistério dentro do mistério

O céu parecia o limite para o ambicioso paranaense. Durante depoimento na Assembleia Legislativa, convocado que foi e a responder perguntas do então deputado estadual João Correia (MDB), ele deixa os demais parlamentares e a plateia boquiabertos. João Correia na época era relator da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Assembleia que visava investigar denúncias de falcatruas envolvendo obras executadas pelo Governo de Edmundo Pinto, entre elas o já famoso Canal da Maternidade.

Numa licitação vencida pela Construtora Norberto Odebrecht, o canal seria construído pela nada desprezível quantia de USS$ 110 milhões, recursos obtidos por Piestchman ou agora Pitiman junto à curadoria do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviços), no Governo de Fernando Collor. No depoimento na Assembleia, João Correia quer saber como aquele rapaz de apenas 27 anos de idade, sem maiores predicados políticos ou influência na política nacional em Brasília conseguia obter tão vultosas quantias de recursos para o Acre, um Estado pobre e isolado que frequentava as páginas de polícia da imprensa nacional bem mais que o noticiário político. Depondo, Piesctahman ou simplesmente Pitiman, sem nem piscar os indefectíveis olhos verdes que levariam moiçolas casadoiras a compará-lo com o então imberbe Brad Pitt, ele disse:

– Eu sei o caminho das pedras em Brasília!

Outras respostas não menos embaraçosas e reveladoras como aquela à CPI simplesmente desapareceram com o incêndio do prédio da assembleia, dia 30 abril daquele ano, exatos 17 dias antes do assassinato do governador. Os documentos formam incendiados em revelar aos deputados os caminhos percorridos por Pitiman para obter os recursos.

Incêndio do prédio da Assembleia Legislativa de Rio Branco Acre as 15h10min do dia 30 de Abril de 1992

Por certo, ele conhecia bem os caminhos dos subterrâneos de Brasília. Assim que Edmundo Pinto fora assassinado, depois de chorar rios de lágrimas ao lado do caixão do governador – Piesctchman ou Pittiman, para uns choros como uma imitação perfeita do ator norte-americano do qual quase tomara emprestado o sobrenome, o homem desaparece do Acre e só vai ressurgir, agora no Distrito Federal, como um dos políticos e empresários mais fortes de Brasília. Afinal, como disse, ele sabia o caminho das pedras do Planalto Central e talvez por isso o ex-chefe da Casa Civil do Estado do Acre na gestão de Edmundo Pinto, surge como presidente da Novacap, uma empresa pública do Distrito Federal na gestão do governo de José Roberto Arruda, aquele que acabaria preso aos ser flagrado por câmeras de TV recebendo pacotes de dinheiro que iria  guardá-los nas meias e na cueca.

Ele foi pego em 2010 na operação “Caixa de Pandora”, deflagrada pela Polícia Federal no dia 27 de novembro daquele ano, que apontava o governador como principal articulador de um esquema de corrupção envolvendo integrantes de seu governo, empresas com contratos públicos e deputados distritais. De acordo com o inquérito, Arruda teria recebido dinheiro de empresas de forma ilegal – e usado parte da verba para cooptar parlamentares na Câmara Legislativa. A Polícia Federal tinha em mãos uma série de vídeos que mostram parlamentares e empresários recebendo maços de dinheiro das mãos de Durval Barbosa, então secretário de Relações Institucionais do governo, que contribuiu com a PF nas investigações em troca de redução de pena.

A situação do governador ficou ainda mais complicada com a divulgação de um novo vídeo, no início de fevereiro daquele ano, mostrando um suposto episódio de suborno a uma das testemunhas do processo, o jornalista Edson Sombra.

O episódio fez o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decretar a prisão preventiva do governador, com o argumento de que, em liberdade, Arruda poderia obstruir as investigações. Arruda é marido da deputada Flávia Arruda, até recentemente uma poderosa chefe da Secretaria Geral da presidência do governo de Jair Bolsonaro, cargo do qual desincompatibilizou-se em abril para disputar novo mandato pelo Distrito Federal.

Mas, a despeito dos problemas com o chefe governador, nas eleições no Distrito Federal em 2010, adotando o nome Luiz Pitiman, elegeu-se deputado federal pelo PMDB, com 51.491 votos. Devido a problemas com o partido, acabou entrando com um pedido no TSE para sair da sigla sem se enquadrar na infidelidade partidária. O pedido foi aceito após 4 meses e o deputado então filiou-se ao PSDB.

Como um político de princípios ideológicos multiuso, o ex-aliado de Arruda no PFL (hoje União Barsil), vai servir o governo petista de Agnelo Queiroz, como Secretário de Obras do Distrito Federal, cargo que ocupou até 21 de julho de 2011, quando pediu demissão, por atritos com o governo, voltando a assumir sua cadeira na Câmara dos Deputados.

Na Câmara, atua como titular na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) e preside a Frente Parlamentar Mista para o Fortalecimento da Gestão Pública. Pitiman também é autor de vários projetos, como a proposta de realização de um plebiscito nacional para discutir a maioridade penal no país, e o projeto Trabalhante. Seu mais interessante projeto é da “Mãe Crecheira”, que permite que a dona de casa permaneça em sua residência, mediante ajuda financeira de órgãos públicos, a fim de cuidar de crianças carentes da vizinhança, para que outras mães possam trabalhar.

Em 2014, Luiz Pitiman disputa o governo do Distrito Federal pelo PSDB, com apoio do candidato a presidência Aécio Neves, mas não consegue ser eleito, obtendo 68.305 votos (4,46%), ficando em 4º colocado na disputa pelo governo do DF. Nada mal para um homem que deixou o Acre sob fortes suspeitas de envolvimento no assassinato do governador Edmundo Pinto.

O dia em que Edmundo Pinto viaja ao encontro da morte

Edmundo Pinto deixa o Acre ao encontro da morte em São Paulo no dia 11 de maio de 1992. Vestia um terno incrivelmente branco, com suspensórios de detalhes em alumínio dourado. Vai à sede do Tribunal de Justiça transmitir o Governo do Estado à desembargadora Miracele Lopes Borges, então presidente do Judiciário local, sua amiga e sua ex-professora do curso de Direito na Ufac (Universidade Federal do Acre). “Vou passar o Governo para Mira”, dissera, ainda no Palácio Rio Branco, ao se dirigir a pé para sede do Tribunal, nas mediações, chamando a desembargadora pelo apelido. Seu vice, Romildo Magalhães, com o qual ele mantinha relações azedas, estava viajando, para Manaus (AM), e o presidente da Assembleia, deputado Ilson Ribeiro, faria parte da comitiva do governador – uma estratégia para que a desembargadora assumisse, interinamente, o mais elevado cargo da administração pública estadual.

Edmundo Pinto deixa o Acre no dia 11 de maio de 1992.

Luís Carlos Pitiman, assim como outros assessores estaduais, também fariam parte da comitiva, alguns ficando em Brasília e outros acompanhariam o governador a São Paulo, numa viagem cujos objetivos até hoje, 30 anos após sua morte, não foram esclarecidos. Na época, a então primeira-dama, que fazia aniversário na véspera da morte do marido, revelou que nem ela sabia que Edmundo Pinto estaria na capital paulista. Também fazia parte da comitiva o então coronel PM Marcos Wisman, um catarinense que seria nomeado ajudante de ordens do governador e responsável por sua segurança física. Indicação de Luís Carlos Pitiman, seu amigo.

Consta que, na véspera de sua morte Edmundo Pinto, Pitiman e Wisman assistiram, num cinema localizado nas proximidades do hotel Dela Volpi Garden, tão perto cuja pouca distância lhes permitiu seguirem a pé pela calçada, como pessoas comuns, para assistirem a um filme no local. Em exibição, o filme “O Cabo do Medo”, no qual o ator Robert de Niro interpreta um presidiário condenado por crimes sexuais e que, na cadeia, passa por todos os castigos que afligem aos condenados por tais práticas. Uma vez solto, o personagem De Niro sai da cadeia disposto a vinga-se do advogado interpretado pelo ator Nick Nolte, que não teria defendido o personagem de De Niro de forma adequada.

Os três deixam o cinema e retornam ao hotel, onde, entre duas e três da madrugada, novamente a pé, Edmundo Pinto é abordado. Para a família, já que não houve arrombamento da porta do quarto de hotel e a tese do uso da chave mestra do quarto parece meio furada, o governador abrira a porta para alguém que ele conhecia, gente da sua confiança. O problema é que, uma vez dentro do apartamento, quem entrara por aquela porta ameaçara o governador e ambos então travaram uma luta corporal, antes de o governante ser alvejado com dois tiros de revólver. A luta corporal fica clara por pequenas lascas de pele humana diversa das suas encontradas sob as unhas do governador, luxações em seu corpo além dos ferimentos de balas e um dente quebrado na boca de Edmundo Pinto, que sempre se orgulhara de sua dentição perfeita e natural. Era o começo de uma noite que, após 30 anos, para a família, amigos e seguidores do governador, ainda não terminou.

O coronel Wisman, que estava instalado num quarto próximo ao do Governador, disse não ter ouvido nenhum barulho no local. Atribuiu a falha ao barulho da TV num filme que assistira depois de retornar do cinema. Era um cinéfilo o coronel…

 

Filhos e viúva estão de volta ao Acre e reafirmam tese de crime político

A morte de Edmundo Pinto esfacelou também sua família, que nunca mais seria a mesma. A viúva, Fátima Almeida, funcionária do Banco do Brasil, tentou refazer sua vida e até voltaria a namorar e quase se casou novamente, mas acabou indo embora do Acre. Vive hoje no Rio de Janeiro, de forma discreta.

Fatima Almeida e Rodrigo Filho

Seu filho mais velho, Rodrigo Pinto, que foi vereador por Rio Branco, que adotou o nome do pai e deve ser candidato a um cargo eletivo agora em 2022, vive hoje em Dubai, nos Emirados Árabes, como treinador de lutas marciais, da qual é mestre em último grau, do exército local e da segurança dos sheikes de um dos país mais ricos do mundo. O segundo filho de Edmundo do Pinto, Pedro, vive em  Mato Grosso, como funcionário de uma empresa privada, e a filha mais nova, Nuana, também vive nos Emirados Árabes. É comissária de bordo e vive viajando ao redor do mundo.

A família está reunida no Acre para a missa dos 30 anos de falecimento de seu patriarca. Tanto Fátima Almeida como Rodrigo, que falam pela família, mantém a tese de que Edmundo Pinto não foi vítima de latrocínio, um crime comum. Insistem que ele foi morto por crime político e, 30 anos após o fato, já nem insistem para que o casos seja reaberto porque, depois de tanto tempo, ainda que os reais assassinos ou mandantes – se houverem – fossem encontrados, os crimes já teriam prescritos.

A tese de Fátima Almeida é a mesma manifestada logo após o crime: Edmundo Pinto abrira a porta daquele apartamento de hotel para alguém que ele conhecia. “Meu marido, mesmo em casa, sempre prezava pela segurança e jamais esqueceria uma porta aberta”, repete, como mantra, a viúva.

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O ASSASSINATO DO GOVERNADOR DO ACRE EDMUNDO PINTO EM 1992

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