5 julho 2022 10:20
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Morre Jacó Bittar, o petista que esteve com Lula em evento em Brasiléia quando foi dada a senha para a morte de Nilo Sérgio de Oliveira, o “Nilão”

Ato público foi realizado no 7º Dia do assassinato de Wilson Pinheiro e todos os participantes daquele evento no interior do Acre foram presos com base na Lei de Segurança Nacional, durante a ditadura militar

Por Tião Maia, da Redação do Ecos da Notícia

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O diretório nacional do PT (Partido dos Trabalhadores) divulgou em nota, na tarde desta quinta-feira (26), o falecimento do filiado e militante Jacó Bittar, aos 81 anos, ex-prefeito de Campinas e um dos fundadores da sigla ao lado do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Jacó Bittar (sem barba) era amigo de Lula desde os anos 70 e esteve em Brasiléia, no ato público que seria a causa da morte de “Nilão”, um gerente de fazenda no Acre

Lula, segundo a nota, lamentou a morte do amigo com o qual esteve no Acre, em Brasiléia, em julho de 1980, na missa de 7º Dia de falecimento do sindicalista Wilson Pinheiro de Souza, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município e que foi assassinado a tiros na sede da entidade.

Assim como Lula, o então petista João Maia, que seria deputado pelo MDB e outros partidos, além de Chico Mendes, sindicalista assassinado em 1988, em Xapuri, Jacó Bittar também seria preso e processado por causa e participação naquele ato público de Brasiléia, na época, estava em vigor a Lei de Segurança Nacional, utilizada pelo regime militar que havia tomado o poder no país em 1964 contra adversários do regime e o comício de Brasiléia, com a participação de Lula e Bittar, foi entendido como ato de incitamento à morte através da chamada luta de classe.

É que, no ato púbico em memória de Wilson Pinheiro, Lula, que ainda não havia registrado o apelido no sobrenome e era apenas um sindicalista conhecido pelas greves em São Paulo como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, ao lado de Jacó Bittar e outros seguidores, percorriam o país fundando aquele que seria chamado PT, o Partido dos Trabalhadores.

Em Brasiléia, Wilson Pinheiro era presidente da comissão provisória do PT e foi assassinado sete dias antes num caso misterioso em que, 42 anos depois, não se tem informações sobre os autores e mandantes.

Sobre um caminhão, Lula, Jacó Bittar e outros protestavam contra morte do sindicalista acreano quando então futuro presidente da República disse uma frase enigmática:
– Estou cansado de andar o país enterrando companheiros. Creio que já passa da hora da onça beber água.

Fim do ato público, aquela frase de Lula fora entendida pelos companheiros de Wilson Pinheiro como uma senha para a vingança contra o principal suspeito do assassinato do sindicalista de Brasiléia.

O suspeito atendia pelo nome de Nilo Sérgio de Oliveira, o “Nilão”, um homem de aproximadamente dois metros de altura, gerente da Fazenda Nova Promissão, apontado como inimigo de Wilson pinheiro e interessado na morte dos sindicalistas da região.

O avião em que Lula, Jacó Bittar e outros companheiros viajavam, havia decolado do acanhado aeroporto de Epitaciolândia, do outro lado do rio, na estrada por onde “Nilão” deveria passar dirigindo uma pick-up, pelo menos 50 homens, todos armados, fizeram-no parar o veículo e o justiçaram à moda dos pelotões de fuzilamento.

“Nilão” foi morto com pelo menos 50 tiros e o crime, mais tarde, seria atribuído pela Justiça Militar a Lula, Jacó Bittar e outros fundadores do PT.

Parte desta história o amigo de Lula levou consigo hoje, ao morrer em sua casa, no interior paulista. Bittar morava na cidade que administrou entre 1989 e 1992, ainda no PT, e tinha mal de Parkinson.

O velório ocorreu nesta tarde em Campinas e o enterro seria em Souzas (SP). Não houve confirmação oficial, mas a presença do ex-presidente era esperada.

Nascido em 1940, em Manduri (SP), Bittar era amigo de Lula desde os anos 1970, época em que os dois eram sindicalistas. Ele ajudou a fundar o PT, em 1980; a CUT (Central Única dos Trabalhadores), em 1983; e o antigo Sindicato dos Petroleiros de Campinas e Paulinia. “Foram anos e anos de luta juntos por um país melhor e mais justo, e de uma convivência querida e carinhosa, uma grande amizade entre nossas famílias e filhos.

Jacó deu uma contribuição imensa para os petroleiros, a classe trabalhadora, Campinas e o Brasil”, declarou Lula, por meio de nota divulgada nesta manhã de quinta-feira.

Bittar participou da primeira grande leva de prefeitos de PT no estado durante a redemocratização. Ele foi eleito prefeito de Campinas, maior cidade do interior, em 1988, quando Luiza Erundina (hoje PSOL) e Telma de Souza (PT) ganharam na capital e em Santos, respectivamente.

O ex-prefeito de Campinas e sindicalista ficou no partido até 1991, em meio a desavenças com o vice, Toninho, que se tornaria prefeito da mesma cidade em 2001 e foi assassinado no cargo. Bittar se mudou para o PSB, mas a amizade com antigos companheiros seguiu.

Ele era o dono formal do sítio de Atibaia, frequentado pelo ex-presidente e que gerou uma das condenações de Lula na Lava Jato em 2018, anulada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), em 2021.

À época, seu nome e do seu filho, Fernando, chegaram a ser sondados pela operação comandada pelo ex-juiz Sergio Moro (União Brasil). Bittar afirmou que o sítio era dele e que Lula tentou comprá-lo, mas a propriedade não foi vendida. “A partir de 2014, o Lula teve algumas conversas comigo e com o Fernando dizendo que queria comprar o sítio porque o usava mais do que nós e se sentia constrangido com a situação. Eu sempre fui contra a venda e disse que eles poderiam usar o quanto quisessem e que isso me deixava feliz”, declarou Bittar em nota divulgada em 2018.

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