6 julho 2022 12:07
6 julho 2022 12:07

Após ação de quilombolas, mineradora inglesa é interditada na Bahia

Por Redação Ecos da notícia

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A imagem de Iemanjá está ao lado de Cristos crucificados, pôsteres do Vasco da Gama, fotos dos netos e de uma Nossa Senhora segurando uma folha de espada de São Jorge. As paredes de barro da casa de Leonisia Maria Ribeiro estão repletas de crenças, mas nos últimos anos ganharam marcas de que até a sua fé duvida. São rachaduras que atravessam os tijolos de adobe e desassossegam a benzedeira. “Essas bombas só faltam matar a gente”, lamenta.

As bombas a que Leonísia se refere são dinamites usadas pela mineradora inglesa Brazil Iron para extrair minério de ferro na região mais alta da Chapada Diamantina, em Piatã, na Bahia. A benzedeira é moradora da comunidade quilombola da Bocaina, vizinha do empreendimento, e aponta o impacto das explosões como cicatrizes que racham as paredes de sua casa.

“Essas bombas estrondam a casa todinha. Tem hora que até as coisas da casa a gente vê sacudindo. Estou com medo dela [a casa] cair. Tenho imaginação de estar dormindo e uma hora a casa despencar de vez”.

Semanas depois de a equipe da Repórter Brasil entrevistar Leonísia, o Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recurso Hídricos), órgão ambiental do governo baiano, fiscalizou as instalações da mineradora e decidiu interditá-la temporariamente. A interdição vigora desde 26 de abril e foi motivada por pelo menos 15 irregularidades, entre elas não prever recursos para recuperar as casas rachadas.

A reza de Leonísia é forte. Enquanto mostra as rachaduras, ela lembra do passado, quando participava de uma celebração religiosa repleta de sincretismo. Aos 76 anos, fechou os olhos e puxou na memória a música que cantava enquanto benzia as pessoas: “Vem, vem, vem, vem Espírito.

A poucos quilômetros dali, Ana Joana Bibiana Silva, de 81 anos, toca matraca e canta as ladainhas da encomendação das almas. A sala de sua casa está toda enfeitada com fitas coloridas, um resquício da última folia de reis, quando recebeu os moradores para a festa.

Leonísia e Bibiana nos transportam para Belonisia e Bibiana, as irmãs do best-seller ‘Torto Arado’, do escritor baiano Itamar Vieira Junior, vencedor do Prêmio Jabuti de 2020. É impossível conhecer as comunidades quilombolas de Bocaina e Mocó, na Chapada Diamantina, e não associar ao que é narrado no livro, cuja trama acontece na mesma região. A ligação fica mais intensa por causa da coincidência de nomes entre as personagens da vida real e as da ficção – encharcada de realidade. Enquanto no livro Belonisia e Bibiana têm a vida atravessada por um acidente com uma faca e pela intervenção dos seres encantados manifestos no Jarê (religião de matriz africana típica da Chapada Diamantina), na vida real, Leonísia e Bibiana também têm a trajetória permeada pelo sincretismo religioso e enfrentam juntas os efeitos da mineração.

Projeto bilionário As duas comunidades quilombolas, que juntas somam 150 famílias, comemoraram a interdição temporária da mineradora. Para o coletivo de moradores SOS Bocaina e Mocó, a interdição já deveria ter acontecido, pois a mineradora atuava sem as devidas licenças ambientais. Além da fé e da luta das duas comunidades, um episódio catalisou a atenção para a mineradora Brazil Iron. Em 28 de março, a equipe da Repórter Brasil foi até a sede da empresa, no centro de Piatã, solicitar uma entrevista com algum representante. Ao invés de respostas, o gerente de logística da Brazil Iron chamou a polícia para os jornalistas, o que provocou protestos de entidades como a Associação Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Ao ser questionado pela reportagem, em 11 de abril, sobre as infrações da Brazil Iron, o Inema não respondeu imediatamente. Decidiu enviar uma equipe para fiscalizar a empresa e retornou, semanas depois, dizendo que havia interditado as operações da mineradora. Listou 15 infrações, entre elas ausência de estudos para depositar rejeitos da mineração, deixando nascentes e rios vulneráveis.

A Brazil Iron estima um prejuízo de R$ 200 mil para cada dia parada. Ao todo, as perdas somam R$ 4,4 milhões. Em nota, a mineradora disse que recebeu “com profunda surpresa e desapontamento” a interdição, negou cometer as infrações e avalia que a medida gerou “medo e insegurança” nas famílias que dependem do emprego na mineradora.

Fonte/ Uol notícias

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