28 maio 2022 9:36
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TSE julga na semana que vem se recomendação de voto em igrejas evangélicas é abuso de poder religioso

Corte eleitoral debate um quarto tipo de abuso capaz de levar à perda de mandato; Tribuanl está dividido e proposta pode não passar

Por Tião Maia, Redação Ecos da Notícia

A semana que vem será decisiva para quem pensa em disputar mandatos eletivos com apoio de pastores – senão eles próprios – e outros líderes evangélicos. É que, na quinta-feira (14), os sete juízes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se reúnem em Brasília para decidir se manifestações religiosas, com pedido ou recomendação de voto para determinados candidatos apoiados pelas igrejas, não caracteriza um quarto tipo de abuso eleitoral, cuja punição é a cassação de tais candidaturas ou perdas de mandatos.

A atual legislação eleitoral prever três tipos de abuso: o econômico, o político e o uso indevido dos meios de comunicação. O TSE vai decidir se a legislação comportaria o quarto tipo de abuso, o de poder religioso. A proposta enfrenta algum tipo de resistência dentro do próprio TSE, segundo informou, na edição este domingo (10), o jornal “O Estado de S. Paulo”, citando quatro dos sete ministros.

A discussão sobre o assunto foi iniciada em junho do ano passado pelo ministro Edson Fachin, então membro da corte e seu atual vice-presidente. De acordo com a publicação paulista, o debate é acompanhado com algum tipo de apreensão pelo presidente Jair Bolsonaro, pré-candidato à reeleição, e seu grupo de aliados, os quais veem na ideia ameaça à liberdade de religião e uma caça às bruxas contra o conservadorismo.

Fachin propôs criar também a possibilidade de se punir quem utiliza sua ascendência eclesiástica sobre algum grupo para influenciar na escolha de candidatos. Nos bastidores, segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, os ministros que resistem à ideia afirmam que se trata de um tema novo, delicado, sem jurisprudência firmada, o que demanda um estudo mais profundo.

A expectativa é a de que os votos sejam longos e aprofundados.
Fachin trouxe o caso à lume a partir de relatório de sua autoria em relação à uma vereadora de Luziânia (GO), Valdirene Tavares (Republicanos). Pastora da Assembleia de Deus, ela é acusada de usar sua posição na igreja para promover a candidatura, influenciando o voto de fiéis. Valdirene foi reeleita em 2016.

O ministro já votou contra a cassação da vereadora, por não encontrar provas suficientes no caso concreto, mas ressaltou que Estado e religião devem ser mantidos separados para garantir a livre escolha dos eleitores.
“A imposição de limites às atividades eclesiásticas representa uma medida necessária à proteção da liberdade de voto e da própria legitimidade do processo eleitoral, dada a ascendência incorporada pelos expoentes das igrejas em setores específicos da comunidade”, disse Fachin no início do julgamento, em junho, num dos trechos mais polêmicos do voto, interpretado como uma crítica severa aos religioso envolvidos com política.

O ministro também propôs, no julgamento, a inclusão do abuso de poder de autoridade religiosa em ações que podem eventualmente levar à cassação de mandato de políticos.

O ministro Alexandre de Moraes, outro membro da corte eleitoral, discordou do colega nesse ponto. “Não se pode transformar religiões em movimentos absolutamente neutros, sem participação política e sem legítimos interesses políticos na defesa de seus interesses assim como os demais grupos que atuam nas eleições”, observou Moraes, que vai comandar o TSE nas eleições presidenciais de 2022.

Com um voto de cada lado, as atenções agora se voltam para o entendimento dos outros cinco ministros que ainda não se pronunciaram.

O TSE é um tribunal híbrido, composto por sete magistrados – três são oriundos do STF, dois do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e outros dois são advogados. Segundo o Estadão apurou, o atual presidente da corte eleitoral, Luís Roberto Barroso, vê com simpatia a posição de Fachin, enquanto Luís Felipe Salomão deve se aliar a Moraes.

O ministro Tarcísio Vieira, da classe dos juristas, é considerado mais autocontido e tenderia a ir contra a criação da figura do abuso de poder religioso. Já os votos de Sérgio Banhos, que ainda pode ser reconduzido ao cargo por Bolsonaro, e Og Fernandes são vistos como incógnita pelos colegas.

Para tentar apaziguar os ânimos, Fachin, que é o vice-presidente do TSE, se reuniu na quarta-feira passada por videoconferência com deputados da Frente Parlamentar Evangélica. Durante o encontro, definido como cordial e amigável por participantes, os parlamentares deixaram claro que, na visão deles, é “ativismo judicial” cassar o mandato de políticos – de vereadores a presidente da República – por abuso de poder religioso.

Na opinião dos deputados, qualquer ofensiva nesse sentido dependeria da aprovação de uma lei pelo Congresso Nacional com essa previsão explícita. “Eu entendo que os próximos passos devem ser novos diálogos com os outros ministros que vão votar e temos de agir rápido”, disse o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), integrante da bancada evangélica e que participou do encontro com Fachin, disse o Estadão.

Um dos pontos discutidos na reunião foi um memorial elaborado pela Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure), que já foi distribuído aos ministros da Corte Eleitoral. No documento, a associação sustenta que a legislação eleitoral não prevê o chamado “abuso de poder religioso”, de modo que a aplicação de sanções com base nesse novo conceito tem o potencial de gerar “grave insegurança jurídica e violar a liberdade religiosa”.

“A Anajure entende que as instituições religiosas e os seus membros são livres para refletir e dialogar a respeito dos candidatos e das propostas que melhor se amoldam aos seus princípios, independentemente de interferência estatal”, disse ao Estadão o presidente da associação, Uziel Santana.
“As igrejas, como qualquer outro segmento podem incorrer em abuso? Podem e para isso já existe n\a legislação eleitoral as figuras jurídicas do abuso do poder econômico e das comunicações, por exemplo. Ativismo judicial em matéria eleitoral é abuso do poder judiciário contra a democracia.”

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