24 maio 2022 8:13
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Pesquisador diz que o buriti, apesar de saboroso, nutritivo e abundante na região, é desprezado como alimento humano

No "Frutas comestíveis na Amazônia", livro do botânico Paulo Bezerra Cavalcante mostra que alimento é descartado no momento em que a fome aumenta entre os mais pobres

Por Tião Maia, Redação Ecos da Notícia

Por Tião Maia, da redação do ecos da Notícia,
O buriti, uma palheira abundante típica da Amazônia, principalmente na região do Vale do Juruá, interior do Acre, cujos frutos podem ser utilizados na alimentação humana, é desprezado como fonte de proteína. A cada ano, entre 60 e 70 milhões de toneladas do fruto mais rico em carotenoides do mundo amadurecem no Brasil, mas só uma ínfima parcela é aproveitada por humanos. O buriti pode ser utilizado em sucos ou coo gordura natural.

A informação está em “Frutas comestíveis na Amazônia”, livro do botânico Paulo Bezerra Cavalcante, lançado em 2010.

A estimativa trata do buriti, fruto de uma palmeira abundante na Amazônia e também da região do Cerrado, mas desprezado pela indústria alimentícia.

As propriedades antioxidantes do buriti ajudam a prevenir câncer e outras doenças.

Versátil, ele pode ser consumido in natura ou transformado em farinha, doces e pães.

Ainda assim, o fruto é uma das várias espécies alimentícias nativas do Brasil que têm perdido espaço em lares, restaurantes e mercados ao mesmo tempo em que a fome cresce e a comida encarece no país.

Não ´so o buriti que sofre este desprezo. Plantas como Ora-pro-nóbis, que integra a culinária típica de Minas Gerais, também é pouco conhecida em vários outros Estados.

Resistentes, várias hortaliças espontâneas comestíveis toleram grandes variações climáticas e dispensam cuidados especiais.

Um exemplo é o caruru, que tem folhas com propriedades semelhantes às do espinafre e sementes com 17,2% de proteínas. Outra planta é a beldroega, rica em ômega-3 e nas vitamina B e C, além de ter propriedades antioxidantes.

Professor do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) em Manaus, o botânico Valdely Kinupp diz que 90% do alimento mundial hoje vem de 20 tipos de plantas – embora se estime que até 30 mil espécies vegetais tenham partes comestíveis.

Os números soam ainda mais paradoxais no Brasil, país que abriga entre 15% e 20% das espécies vegetais do planeta, mas alimenta a maior parte de sua população com o mesmo cardápio limitado – e majoritariamente estrangeiro.

São estrangeiros quase todos os principais produtos agrícolas do país, como a soja (China), o milho (México), a cana-de-açúcar (Nova Guiné), o café (Etiópia), a laranja (China), o arroz (Filipinas) e a batata (Andes).

Entre as raras plantas que fizeram o caminho inverso, saindo do Brasil para ganhar outras partes do mundo, estão a mandioca, o cacau e o amendoim.

No livro “Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil”, que Kinupp lançou com o colega botânico Harri Lorenzi em 2014, são listadas 351 espécies alimentícias “subutilizadas, mal conhecidas e negligenciadas” pela população brasileira.

Muitas delas são nativas; outras, espécies exóticas já naturalizadas e aclimatadas ao país.

Várias são conhecidas por uma série de nomes populares distintos Kinupp é um dos principais líderes no Brasil de um movimento pela valorização das PANC, o acrônimo que batiza seu livro.

Nos últimos anos, embalados pelo movimento, alguns mercados e feiras ampliaram a oferta de PANC, chefs as incorporaram em restaurantes, e cozinheiros criaram contas no Instagram e YouTube para compartilhar receitas.

O pesquisador Nuno Rodrigo Madeira, da Embrapa Hortaliças, sugere caminhos para produtos coo o buriti serem melhor utilizados na dieta humana.

Um desses caminhos seria incentivar o cultivo de plantas alimentícias não convencionais, oferecendo apoio técnico aos agricultores, criando feiras para a venda desses itens e espaços para a troca de conhecimentos.

O segundo seria aprofundar o debate sobre a comida nas escolas; ensinar às crianças desde cedo a importância de consumir produtos frescos e nutritivos, fazê-las se questionarem sobre a origem dos alimentos e entenderem como a comida é feita.

O terceiro caminho para diversificar e baratear a comida, segundo o pesquisador, seria reaproximar a produção de alimentos da população – especialmente a população que vive nas cidades.

Pessoas que morem em casas com quintais poderiam se tornar quase autossuficientes em hortaliças, diz ele, se cultivassem alguns pés de espécies como ora-pro-nóbis, chaya ou moringa – todas elas árvores ou arbustos perenes que produzem folhas comestíveis em abundância o ano todo.

Mas como nem todos têm espaço em casa para produzir, o pesquisador defende que as cidades destinem espaços para a criação de hortas urbanas.

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