Rio Branco,

‘Espero encontrar minha casa em pé’, diz morador afetado pela cheia de rio no interior do Acre

Por G1 AC

Mesmo apresentando sinais de vazante, quando as águas começam a baixar, o rio Iaco em Sena Madureira ainda segue desabrigando 1.465 famílias. Na última medição desta terça-feira (23), o nível do rio está em 15.20 metros.

Uma equipe da Rede Amazônica esteve no local e conversou com alguns moradores que relataram, além dos transtornos e perdas com a cheia, a preocupação com bandidos que estão saqueando as casas.

O autônomo Manoel da Silva Bastos conta que não deu tempo de tirar muita coisa de dentro de casa. Ele tinha feito uma reforma recente de R$ 7 mil e perdeu muitos móveis. Ele e a família estão na casa de uma cunhada.

“Perdi cama, guarda-roupa, estante, perdi várias coisas. Espero ao menos encontrar minha casa em pé quando as águas baixarem para não ter um prejuízo tão grande, porque as coisas que perdi só no dia a dia a gente vai recuperando aos poucos”, diz.
Todos os dias ele tem ido até a casa completamente coberta pelas águas. Com a previsão de mais chuvas, o autônomo se agarra à fé para tentar enfrentar os dias difíceis.

“Espero que Deus estenda mão e ajude esse povo, porque como vai ficar a nossa situação? Deus que vai dizer quando o rio vazar.”

Morador tirar coisas de dentro de casa após ela ter sido invadida  — Foto: Reprodução/ Rede Amazônica Acre

Morador tirar coisas de dentro de casa após ela ter sido invadida — Foto: Reprodução/ Rede Amazônica Acre

Na casa do vizinho há mais de uma semana, Rivanildo de Souza, que é pedreiro, conta que só conseguiu salvar camas e colchões. O restante das coisas está debaixo do rio.

“Eu tava pra colônia e quando cheguei já estava quase tudo alagado. Fomos ajudar um, ajudar outro e acabou que conseguimos tirar poucas coisas. Perdi a geladeira, armário, tudo está debaixo d’água. A gente está rezando que o rio baixe, mas quem manda é Deus, a gente não pode se desesperar”, diz.

Casas saqueadas

Para não ficar no escuro, o autônomo Sebastião da Silva improvisa um bico de energia com bateria de carro. Ao ligar os fios da lâmpada na bateria ele consegue pelo menos iluminar um pouco.

Ele disse que não saiu de casa porque tem medo que ela seja saqueada, como tem ouvido muitos relatos. Silva teve até um carro coberto pelas águas, foi uma das coisas que ele não conseguiu tirar a tempo.

“Conseguimos tirar pouca coisa, o carro não conseguimos tirar, quando cheguei da colônia ele já estava coberto. Pra não ficar à noite no escuro diz esse bico de energia, tem muita gente tentando arrombar casa e se você não ficar de olho, os caras levam. Já não tenho quase nada e os outros ainda levarem”, lamenta.

Já o diarista Ciro Souza, que teve que ficar em uma casa de invasão, teve a casa invadida. Os bandidos entraram pelo telhado – única coisa que está fora das águas e conseguiram sair pela janela.

PM diz que tem feito patrulhamento, mas situação é difícil de controlar  — Foto: Polícia Militar do Acre

PM diz que tem feito patrulhamento, mas situação é difícil de controlar — Foto: Polícia Militar do Acre

Com a casa completamente coberta pelas águas, ele conta que sentiu falta apenas uma mesa por enquanto e lamentou que pessoas se aproveitem do momento para cometer crimes.

“Arrombaram minha casa e do rapaz do lado. Ainda tem gente arrombando casa e levando o que a gente já não tem. Isso diante desse sofrimento que estamos passando. É muita falta de humanidade, falta consciência de um ser humano desse. Agora estamos aqui tentando tirar o resto das coisa para não levarem”, desabafa.

O tenente Fábio Diniz, do Batalhão da Polícia Militar na cidade, explica que são feitos patrulhamento, mas que a situação é difícil de controlar.

“A gente vem fazendo, dentro da nossa possibilidade, patrulhamento noturno e à tarde. Ocorre que nós também temos a questão dos abrigos e das organizações criminosas. Estamos atuando fortemente para tentar evitar, mas é complexo”, disse.

Cheia em Sena

O nível do Rio Iaco em Sena Madureira, no interior do Acre, está baixando, mas o manancial segue com mais de 2 metros acima da cota de transbordo, que é de 15,20 metros. Segundo dados do Corpo de Bombeiros, o rio marcou 18 metros nesta terça-feira (23).

O manancial baixou 12 centímetros nas últimas 24 horas, mas continua atingindo 17.376 pessoas do município. Essa é a maior cheia desde 1997, quando rio marcou 19,40 metros.

Ainda conforme os dados, mais de 4,3 mil famílias estão atingidas pela cheia, 2.531 famílias estão desalojadas, ou seja, foram levadas para casas de parentes e outras 1.465 estão desabrigadas.

Informações do gabinete de crise instalado na cidade apontam que, ao todo, Sena Madureira está com 47 abrigos, instalados em escolas, igrejas e repartições públicas. A estimativa é que cerca de 70% da cidade esteja atingida pela cheia. Pelo menos 12 bairros estão 100% atingidos pela alagação.

Cheia do Rio Iaco atinge mais de 17,3 mil pessoas em Sena Madureira — Foto: Quésia Melo/Rede Amazônica

Cheia do Rio Iaco atinge mais de 17,3 mil pessoas em Sena Madureira — Foto: Quésia Melo/Rede Amazônica

Calamidade pública

O Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) reconheceu, nessa segunda-feira (22), em edição extra do Diário Oficial da União (DOU), estado de calamidade pública em 10 cidades do Acre atingidas por inundações causadas pela cheia dos rios no estado.

Os municípios de Rio Branco, Sena Madureira, Santa Rosa do Purus, Feijó, Tarauacá, Jordão, Cruzeiro do Sul, Porto Walter, Mâncio Lima e Rodrigues Alves enfrentam dificuldades com parte da população desabrigada (encaminhada para abrigos) e desalojada (levada para casa de parentes).

O governador do Acre, Gladson Cameli, havia decretado calamidade em uma edição extra do Diário Oficial do estado (DOE) também nesta segunda. Pelo menos em oito dessas cidades atingidas os rios estão com vazante (diminuição no nível das águas) e com estabilidade. Mesmo assim, a cheia é considerada histórica e atinge cerca de 118 mil moradores do estado acreano.

Medidas

Dentre as medidas autorizadas, é possível acelerar as ações federais de resposta a desastres públicos, notórios e de alta intensidade. O documento diz ainda que com isso, o governo do Acre pode ter acesso a recursos federais com medidas de socorro e assistência para a população local e também para o restabelecimento de serviços essenciais em áreas afetadas.

O estado pode, ainda, com a calamidade reconhecida, ter segurança jurídica para que o governo federal antecipe pagamentos de aposentadorias e benefícios assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o Bolsa Família.

O decreto de calamidade pública do governo do Acre tem validade por 90 dias. Nesse período, de acordo com o documento, fica autorizada a mobilização de todos os órgãos estaduais para atuarem nas ações de resposta ao desastre. Essas ações vão ser coordenadas pela Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil (Cepdec).

As campanhas em canais oficiais estão sendo feitas pelos:




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