Durante blitz Álcool Zero, prefeito de Sena Madureira expulsa policiais da cidade “da ponte pra lá, aqui quem manda sou eu”

O prefeito do  município de Sena Madureira, Mazinho Serafim (MDB), protagonizou uma cena vergonhosa quando deu uma carteira  durante blitz Álcool Zero, na madrugada de domingo (29), na última noite da ExpoSena, dá ordens para que a blitz seja encerrada e ameaça prender o tenente do Polícia Militar. (VEJA VÍDEO COMPLETO ABAIXO)

“Se autuar, quem tá preso é o tenente  (…) Tenente, você tá falando com o prefeito, você pode ser um tenente, eu sou um prefeito, tá certo? Vou ligar pro coronel Bino”, afirma.

O tenente reage à ameaça e diz que está apenas fazendo o seu trabalho.

Prefeito aponta dedo para policiais durante blitz — Foto: Reprodução

Prefeito aponta dedo para policiais durante blitz — Foto: Reprodução

O prefeito continua alterado e tenta ligar para o comandante da Polícia Militar, coronel Ezequiel Bino, para que ele cancele a operação, já que o ‘combinado’, segundo o prefeito, foi que não tivesse blitz durante a festa na cidade.

“Eu conversei com o comandante e o comandante ordenou que o Álcool Zero hoje não ia tá em Sena Madureira…vá buscar o comandante na casa dele, pra colocar o tenente no lugar dele”, se exalta o prefeito.

Comandante citado por prefeito comenta postura: ‘reprovável’

À equipe da Rede Amazônica, o coronel Ezequiel Bino reprovou a atitude do prefeito e elogiou a postura dos policiais militares.

“Primeiro dizer que não cabe a nós, Polícia Militar, avaliarmos a conduta do prefeito de Sena Madureira, isso ficará a cargo das autoridades competentes. Quero elogiar o equilíbrio da equipe diante daquela crise que estava estabelecida ali. Tiveram maturidade profissional, preparo técnico para conduzir bem a ocorrência”, disse.

Bino confirmou que recebeu a ligação do prefeito, mas como era madrugada, não atendeu. E só tomou conhecimento da situação no dia seguinte. Ele disse ainda que a operação continuou a ser feita mesmo com as investidas contrárias do prefeito e afirmou que uma sindicância foi instaurada para apurar o ocorrido.

“Até para que fique muito claro e também para que a gente tenha nesse fato um episódio a ser amadurecido. Essas crises que acontecem nessas ocorrências são utilizadas nos nossos treinamentos”, pontuou.

Sobre a operação, o comandante informou que durante esse período de festa, há um fluxo grande de pessoas o que também faz aumentar o número de condutores consumindo álcool e que a operação ocorre no intuito de evitar acidentes.

Ainda nas imagens, o tenente da PM que foi abordado pelo prefeito falou que respeita Serafim, mas que precisava continuar o trabalho e que não estava subordinado à prefeitura.

“Eu tô fazendo meu trabalho. Nós não somos subordinados à prefeitura. Eu vou dar voz de prisão a você agora…eu tô fazendo o meu trabalho”, ameaça o tenente.

Exaltado, o prefeito chega a falar palavrões e diz que, após a ponte, o PM pode fazer o que quiser e manda que o policial cale a boca.

“Não receba nenhuma multa desse agente de trânsito. Eu nunca assinei um TAC no MP aqui para ter Álcool Zero nessa cidade. Por que não vem nos outros dias aqui, só quando tem festa?”, questionou.

VÍDEO ASSISTA

 

‘Coisas da oposição’, diz prefeito

O prefeito Mazinho Serafim afirmou ao G1 que não está preocupado com a situação, e caracterizou as ações como ‘coisas da oposição que quer tomar o poder’. Ele acrescentou também que acredita na Operação Álcool Zero, mas se disse revoltado, já que, segundo ele, a ação só ocorre em momentos específicos.

“Tem que vir aqui não só quando a gente promove uma grande festa na cidade. Tem que vir no final de semana. O Ministério Público está fazendo o papel dele, não estou preocupado, nem com sindicância, nada disso. Isso, para mim, é coisa da oposição. Não tenho medo de conversar com juiz ou quem for. Vem multar as pessoas para arrecadar dinheiro não sei para quem, esse é o grande negócio. Não faltei com respeito com ninguém”, afirmou Serafim.

Segurança vai apurar conduta de PMs

A Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Acre (Sejusp) abriu uma sindicância para apurar a conduta dos policiais militares durante a blitz Álcool Zero em que o prefeito de Sena Madureira deu uma carteirada.

Além de apurar toda situação, a Sejusp quer saber também o porquê de os policiais militares não terem agido de forma mais incisiva e firme com o prefeito.

O Ministério Público do Acre (MP-AC), por meio da promotoria do município, informou que também instaurou um procedimento preparatório para apurar os fatos.

O secretário da Sejusp, coronel Paulo Cezar, explicou que determinou que o comando-geral da Polícia Militar do Acre (PM-AC) apure os fatos e encaminhe os resultados para o MP-AC.

“Diante dos fatos, não resta outra atitude a tomar. Porque a polícia deixou de agir de forma incisiva, tem que apurar até que ponto a ação do prefeito impediu a ação policial e, consequentemente, se ficar comprovado que precisa punir alguém vai ser feito”, avaliou.

Procedimento preparatório

O promotor de Justiça da Comarca de Sena Madureira, Daisson Gomes Teles, confirmou que abriu um procedimento preparatório para apurar o ocorrido nessa segunda (30). Segundo ele, a PM já foi notificada para apresentar os policiais militares envolvidos na ação.

“Nosso intuito é ouvir os policiais para, a partir daí, saber o que realmente aconteceu. Depois disso, tomar as medidas judiciais cabíveis e se, realmente, for apurada uma conduta que seja considerada contrária à lei, vamos responsabilizar as pessoas pelo evento. Vamos primeiro ouvir os policiais, que são de Rio Branco”, disse.

Teles falou que, logo após ouvir os militares, deve notificar o prefeito e o dono do carro envolvido na situação. Após ouvir todos, o MP deve decidir se instaura um inquérito civil ou um processo por improbidade administrativa. O procedimento tem 90 dias para apurar os fatos

“Como é recente, conseguimos apurar tudo logo. Havia uma festa em Sena Madureira, o que era mais uma razão para fazer a operação e coibir as pessoas que ainda insistem em estar na direção após beberem. A ideia é ouvir todo mundo que estava lá e que poderiam se beneficiar dos fatos”, concluiu.

Por Aline Nascimento e Alzinete Gadelha, do G1 AC

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